Hipatia Literária

escrever é fotografar o tempo com as palavras

Reality Shows e a Herança dos Zoológicos Humanos

Uma “aldeia senegalesa” montada na Exposição Universal de Liège (Bélgica), em 1905

Até os anos 1950, o mundo se distraía com uma aberração social chamada Zoológicos Humanos. Gente de verdade era exibida como peça de museu vivo nas Grandes Exposições Universais: corpos, culturas e identidades embalados para consumo do olhar europeu. Eram chamados de “tribos primitivas”, um rótulo elegante para justificar a desumanização.

O público pagava para ver. A ciência aplaudia. O espetáculo girava.

A antiga “Casa de Vidro”

Com o tempo, a ética bateu à porta. A etnografia evoluiu, os direitos humanos ganharam voz e aquilo que foi vendido como curiosidade virou o que sempre foi: violência simbólica.

Menina africana recebe comida de visitantes da Expo 1958, em Bruxelas, Bélgica

Na nossa sociedade moderna, não chamamos mais de zoológico. Chamamos de reality show, de engajamento, de conteúdo. Pessoas se confinam, se expõem, se fragmentam emocionalmente diante de câmeras 24 horas por dia, agora por escolha própria, movidas por dinheiro, validação e um algoritmo faminto.

O palco mudou. A lógica, nem tanto. Milhões assistem. Julgam. Cancelam. Elegem vilões e heróis. O público continua no mesmo lugar confortável: olhando de fora, consumindo vidas como entretenimento.

Imagem: Jornal EXTRA

A tecnologia vendeu a ilusão de progresso, mas o contrato social continua no passado. Seguimos reciclando velhas estruturas de exposição, só que agora em alta definição. O zoológico ficou mais bonito, mais interativo, mais rentável.
Antes as jaulas eram de ferro.
Hoje são de likes.


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