Li recentemente no LinkedIn, a pergunta: “Onde estão os seniores?”. Talvez exatamente onde vocês não estão olhando.
A resposta é simples, e talvez incômoda.
Estamos trabalhando.
E, muitas vezes, estamos por trás da tecnologia que o mercado chama de inovação.
Existe uma narrativa recorrente: profissionais 50+ seriam “difíceis de adaptar”, teriam pouca familiaridade com as transformações digitais e não acompanhariam os “novos tempos”.

Mas há uma contradição nessa história.
Enquanto algumas empresas descartam profissionais experientes por considerá-los ultrapassados, empresas de tecnologia, automação, gestão de riscos e sistemas corporativos precisam de algo que não vem com um tutorial: experiência, repertório, senso crítico e conhecimento de contexto.
Pensem nas inúmeras ferramentas corporativas utilizadas diariamente.
Muitas foram desenvolvidas fora do Brasil, em inglês, e precisam ser adaptadas para diferentes idiomas, culturas, legislações e realidades operacionais.
E aí entram profissionais que raramente aparecem nos holofotes da “transformação digital”.
Quem garante que aquela tradução está correta? Quem identifica que uma palavra tecnicamente correta pode estar conceitualmente errada? Quem avalia se determinado procedimento faz sentido para a realidade brasileira?
Isso é conhecimento tácito. É repertório.
É capacidade de questionar a ferramenta e não apenas aprender seus comandos.
Mas raramente perguntamos:
Quem qualificou essa linguagem? Quem validou o significado? Quem identificou as ambiguidades?
Pensem nas ferramentas de gestão de riscos, segurança, meio ambiente, qualidade e conformidade traduzidas para o português.
Será que basta traduzir?
Ou é necessário alguém que compreenda o idioma, o negócio, o processo, a legislação, os riscos e a realidade operacional?
É justamente aí que a experiência deixa de ser um “custo” e passa a ser ativo estratégico. E o paradoxo é interessante:
Algumas empresas brasileiras enxergam o profissional sênior como alguém ultrapassado, esperando a aposentadoria.
Enquanto isso, empresas que desenvolvem tecnologias globais utilizam profissionais experientes para transformar conhecimento complexo em ferramentas que os usuários mais jovens conseguem utilizar.
O jovem aprende rapidamente a operar a ferramenta.
O sênior sabe perguntar:
“Mas isso está certo?”
E talvez essa seja uma das competências mais valiosas na era da inteligência artificial.
Porque tecnologia sem conhecimento crítico apenas acelera processos.
Inclusive os processos errados.
“Onde estão os seniores?” Talvez a pergunta mais adequada seja:
“Quanto conhecimento estamos perdendo ao afastar quem passou décadas aprendendo justamente aquilo que agora estamos tentando transformar em algoritmo?”
A experiência não compete com a tecnologia.
Ela ajuda a impedir que a tecnologia seja usada sem inteligência.

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